Augusto Cury – entrevista

Por Antonio Carlos Rix

Carlos Rix:
Qual é a maior dor? Onde dói mais a educação do Brasil hoje? O que mais precisa?

acury
Durante a Bett Brasil Educar 2015

Augusto Cury:
Eu sou publicado em mais de 70 países e para mim, não apenas a educação do Brasil, mas de toda civilização moderna, está doente, formando pessoas doentes para uma sociedade doente. Porque nós tomamos o caminho contraído errado, nós bombardeamos o córtex cerebral das crianças, adolescentes e universitários com milhões de dados sobre o mundo de fora, ensinando matemática, física, química e competências profissionais nas universidades mas não os ensinamos a conhecer o mais complexo de todos os planetas, o planeta chamado “mente humana”.

Nós temos que passar da era da informação para a era do “eu como gestor da mente humana” e para desenvolver o “eu como gestor da mente humana” é fundamental não apenas ensinar as funções cognitivas como raciocínio, memória, dedução, indução, síntese, pensamento lógico.

Precisamos desenvolver uma pauta para ensinar as funções não cognitivas, quais são: pensar antes de reagir, colocar-se no lugar do outro, trabalhar perdas e frustrações, resiliência, filtrar estímulos estressantes, proteger a emoção, gerenciar ansiedade entre inúmeras outras funções não cognitivas, pensar como humanidade.

Ninguém é digno da maturidade e da saúde emocional se apenas pensa como grupo social, religioso, intelectual e político. É necessário pensarmos como família humana, irmos além, tocar a essência. Não há diferenças nos bastidores da mente entre palestinos e judeus, entre hétero e homossexuais, entre celebridades e anônimos, entre intelectuais e iletrados.

Até porque – acabei de falar numa entrevista de um grande jornal televisivo – mesmo o mendigo que perambula pelas ruas e que tem delírios que o mundo conspira contra ele, ele é tão complexo na construção de pensamentos como Einstein que produziu a Teoria da Relatividade.

Quando nós estudamos o processo de construção de pensamento, que é a última fronteira da ciência, e com muita humildade tive o privilégio de desenvolver uma das poucas teorias mundiais, durante 30 anos, sobre a natureza dos pensamentos, os fenômenos inconscientes que os constroem em milésimos de segundos e os tipos de pensamentos e o “eu como gestor da mente humana” estou claro que a nossa espécie beira as raias da inviabilidade porque não desenvolveu as funções não cognitivas mais importantes para formarmos mentes livres com uma emoção saudável.

Por isso reitero e finalizo que para plateias de juízes, no Congresso Nacional, no Supremo Tribunal Federal, em países que eu tenho dado conferências, na Romênia, na Sérvia, na Bulgária, nos Estados Unidos, na Europa… nunca nas sociedades livres houve tantos escravos num único lugar que é inadmissível sermos prisioneiros dentro de si mesmo. A população carcerária do mundo no máximo é 1% na sociedade democrática mas, como digo nos meus livros Vendedor de Sonho, Código da Inteligência e Felicidade Roubada, a população carcerária no território da emoção, ela atinge 99%.

Então fisicamente 1% está preso em presídios, em masmorras e 99% livre mas, emocionalmente 99% estão presos, encarcerados na emoção e no máximo 1% livre. Por isso nós temos que mudar a educação da era da informação para a era do eu como líder do teatro da mente humana como gestor da emoção!

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Parte de um artigo colaborativo com jornalistas de vários países em Inglês, a integra aqui.

Meus agradecimentos a Renata Lemos que gentilmente transcreveu o vídeo.

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Veja em vídeo:

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Tenha sua escola, faça a diferença:

franquia

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Mete a colher sim, por favor!

Agressões de mulheres e o preconceito
por Belinha Salgado
(23/01/14 Editorial do Correio Popular).

A entrevista baseada no artigo está no final do texto original sitado abaixo:

“É preciso meter a colher!

Belinha Salgado
Belinha Salgado

Há muito tempo que a sociedade debate a violência contra as mulheres, e este drama em pleno século 21 ganhou contornos inexplicáveis e de difícil solução para todos que estão diretamente envolvidos na luta contra esse câncer que se propaga. São inúmeras análises e reflexões de psicólogos, assistentes sociais, educadores, médicos, advogados, organizações não governamentais especializadas no assunto, etc, que se dedicam com afinco ao tema e mesmo assim os crimes contra as mulheres aumentam, e ainda com requintes de crueldade. Este fato nos faz indagar: por quê?

Infelizmente, apesar da mulher já ter conquistado uma série de direitos (este ano o direito ao voto feminino no Brasil completa 82 anos), a mentalidade machista ainda permanece arraigada na sociedade, quando sustenta mitos que contribuem, ou melhor, validam a violência contra as mulheres: “O amor é cego”, “bate que eu gamo”, “entre marido e mulher, não metas a colher”, “o amor não tem lei”, “no amor e na guerra vale tudo”, etc, permanecem no inconsciente coletivo e fazem a festa. E assim caminha a humanidade, perpetuando estes mitos que somente vão na contra mão da civilidade.

De todos, para mim, o mais pernicioso é o mito “entre marido e mulher, não metas a colher”. Quantas vezes assistimos calados brigas de casais, ou até mesmo de pais e filhos, amigos, e deixamos passar, não nos “intrometemos”, achando que isso é um problema particular. Está na hora de acordarmos, pois os dados e as estatísticas comprovam que a violência, assim como a drogadição tornaram-se problemas de saúde pública, verdadeiras epidemias sociais. Por isso devemos “meter a colher sim”, nos posicionar, dar nossa opinião quando muitas vezes ao nosso lado alguém sofre qualquer tipo de violência psicológica, física, moral, sexual, etc.

E quem abusa? Não existe um perfil típico, mas algumas características podem ajudar as mulheres e também as crianças a se manterem bem longe deste que atormenta e ceifa a autoestima e muitas vezes a vida de suas vítimas: em público podem até parecer amigáveis, mas já na esfera privada são verdadeiros tiranos. Todos, sem exceção possuem baixa autoestima, muitos são adeptos da arma de fogo (fazer justiça com as próprias mãos) e consumidores de álcool, ou “otras coisitas más”. São muito meticulosos, cuidadosos e tentam esconder suas personalidades frias, distantes, sociopatas. Por fim, culpam suas vítimas pelo ocorrido: “vc só está tendo isso porque não se comportou bem”.

Ainda há outra questão. O fato de que tantos homens se sentem no direito de expressar sua raiva, sendo violento com suas mulheres (a maioria das mulheres assassinadas no Brasil em 2013 foram mortas por seus companheiros ou ex-parceiros), demonstra que este comportamento foi aprendido em casa e está enraizado em nossa sociedade. Por isso, é uma questão de educação e valores.

E quem são as vítimas? Estamos aqui falando de agressões às mulheres, mas qualquer pessoa pode ser vítima! As vítimas podem ser de qualquer idade, sexo, raça, cultura, religião, educação, emprego ou estado civil. E a violência tem um ciclo. O primeiro momento é de tensão, onde quem abusa fica irritado e a comunicação e a tensão vai aumentando e o abuso pode iniciar-se; depois vem a explosão da violência, aqui o abusador parte para o ato de agressão e por fim, a Lua-de-mel: o abusador pede desculpas, faz promessas, culpa a vitima por ser causa do abuso e tenta desvalorizar a situação.

Enfim, acredito que a solução para esta situação calamitosa passa sim pelo rigor das leis, pela punição, mas principalmente pela educação de nossas crianças, pois não estamos matando a mulher do outro: são nossas mães, nossas irmãs, nossas companheiras, nossas amigas, que estão sendo mortas de forma cruel. Enfim, enquanto não houver uma mudança nesta mentalidade do “deixa disso” que ainda impera na sociedade, este mal da violência que nos assola todos os dias não terá fim. ”

– Belinha, qual foi sua fonte de dados?  Você menciona ciclo de violência o que é isso exatamente? Qual é o melhor modo de ajudar (meter a colher)? Quem pode denunciar? Como é melhor fazer isso? Onde buscar socorro?

– Olá Bom dia!

Carlos Rix, Primeiramente gostaria de agradecer esta oportunidade de falar no seu blog de um tema que há muito me interessa.

família Sou historiadora, especialista em arquivos e história da educação brasileira. Nos últimos anos tenho pesquisado muito sobre violência e drogadição, e o tema da violência contra as mulheres sempre me fascina.

Como Educadora, acredito que a violência se aprende e por isso temos que rever nossa educação, todos, escola sociedade e governo. Não é um problema privado somente das famílias, é nosso modelo de sociedade que adoeceu e “ensina” a violência.

Minhas fontes de dados são anos de leitura e artigos que mostram cotidianamente a violência contra as mulheres, os jovens, as crianças, etc. E o aumento dos crimes (e com requintes de crueldade), lotam as páginas dos jornais. Consultei para este artigo especificamente o site http://www.spm.gov.br, da Secretaria de Políticas Públicas para Mulheres. No Balanço Semestral do Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher (http://www.spm.gov.br/publicacoes-teste/publicacoes/2012/balanco-semestral-ligue-180-2012), pode-se ler que as ocorrências de agressões físicas realizadas por companheiros aumentaram em 13% de 2011 para 2012; mais de 50% dos relatos são de risco de morte; filhos e filhos presenciam a violência em 65% dos casos, etc.

No que se refere ao ciclo de violência, como já explicado em meu artigo, as pessoas que sofrem agressão podem perceber desde  a 1° fase deste ciclo, que podem buscar ajuda, não “pagando pra ver”, porque com certeza, quem agride, insulta, humilha, um dia bate, ou faz coisa pior. Pra que deixar chegar nessa lamentável situação?

– Acordem mulheres!

Peçam socorro assim que perceberem alterações no seu companheiro, de atitude, na fala, nos sentimentos.

O problema é que a mulher demora pra perceber (e aceitar) que o amor acabou e acredita que vai conseguir resgatar “o seu homem”…não vai. Ele só vai piorar. Quer ler mais sobre Ciclo de Violência? Consulte:

http://www.campinas.sp.gov.br/sa/impressos/adm/FO736.pdf; http://www.pmpf.rs.gov.br/servicos/geral/files/portal/saber_violencia.pdf.

– Com certeza a melhor forma de ajudar é DENUNCIAR.

Para isso aqui em Campinas/SP você pode contar com  a Delegacia de Defesa da Mulher, na Av. Governador Pedro de Toledo, n° 1161, telefones: (19) 3242-5003 e 3242-7762.  Veja ainda outros locais onde as mulheres podem buscar acolhimento e orientação, antes de denunciar: http://www.campinas.sp.gov.br/sa/impressos/adm/FO736.pdf

– Bom dia pra vocês mulheres!

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apoio cultural

Entremeados – Entrevista com Júlia Tygel


Compositora, arranjadora, pianista… ela se explica, não é preciso colocar as perguntas. Aproveite a entrevista exclusiva, adorei fazer.
Daqui para a frente, Júlia Tygel:

As únicas músicas do meu CD que são misturas diretas de duas músicas pré-existentes são a “Estrada Branca”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, entremeada com a Arabesque No. 1 de Claude Debussy, e a “Senhorinha”, de Guinga e Paulo César Pinheiro, entremeada com o Prelúdio em Sol da primeira suíte para violoncelo solo de J. S. Bach. Em “Valsinha” aparece uma citação do tema inicial de “João e Maria” (Sivuca e Chico Buarque) em contraponto com a melodia da música principal, mas apenas no final.

A idéia de “entremear” tem mais a ver com uma proposta geral do CD que com a mistura de temas específicos, que como disse acontecem apenas em algumas músicas. Eu diria que cada canção se entremeia um tanto com ela mesma, no sentido de que seus próprios elementos (principalmente os elementos melódicos) foram usados para criar seu acompanhamento, seu desenvolvimento, sua harmonização. Esse tipo de procedimento é muito comum em composições ligadas ao universo da música erudita, que, aqui, foram trazidos para o universo das canções populares brasileiras.

O nome também se refere à união entre pessoas e instrumentos nesse trabalho: entre o piano e o violoncelo, o piano e o contrabaixo acústico, e dois violoncelos; e ao fato de haver uma “formação curiosa” de um “duo de três”: as peças para piano e violoncelo são todas para um pianista e um violoncelista. No entanto, gravei e toco com duas violoncelistas, que se revezaram nas músicas do CD e hoje se revezam nos concertos: a Vana Bock e a Adriana Holtz. Para mim isso é um privilégio, porque as duas são excelentes musicistas e acabo aprendendo em dobro. Fora o fato de que há mais disponibilidade de datas para concertos dessa forma, pois as duas são muito requisitadas. Como são muitos amigas e muito éticas, então é um triângulo musical que funciona muito bem!

Para escrever esses arranjos eu ouvi incessantemente cada canção, e tudo o que poderia me inspirar – além do que já estava no meu imaginário, pelo que já tinha familiaridade anterior. Na minha escrita acho que há muita influência de Brahms e muita inspiração em Bach, que sempre ouvi muito (e é na minha opinião uma espécie de “Deus” da música). Vou responder nas suas perguntas um pouco de cada procedimento que usei em cada música, já que a sua pergunta foi tão específica! Segue abaixo.

CD Entremeados

1. Beatriz
autores: Chico Buarque,Edu Lobo | editora: Lobo Music/Marola


George Chan – Videography and Editing
Audio recorded with a Zoom H2n

Beatriz é entremeada com ela mesma em vários parâmetros. Na sessão central da peça ela está em cânone com ela mesma, ou seja: a melodia começa sendo tocada pelo violoncelo, e o piano toca a melodia com deslocamento de um compasso depois da entrada do violoncelo. Então ela se sobrepõe a ela mesma, sempre o piano um pouco depois do violoncelo. São poucas as melodias que permitem essa brincadeira, e incrivelmente a genial melodia de Beatriz funciona com esse recurso. Eu não tinha percebido isso diretamente, mas em uma análise feita pelo maestro João Mauricio Galindo, ele viu que o acompanhamento do piano para a melodia, quando ocorre no violoncelo, foi feito com uma parte da melodia original – isso foi intuitivo. Acho que esse é um dos arranjos que tem bastante influência de Brahms, escrito em uma época em que eu estava tocando a primeira sonata para violoncelo e piano do compositor.

2. Eu não existo sem você
autores: Chico Buarque,Tom Jobim | editora: Fermata


George Chan – Videography and Editing with the help of Alice Wong, Vincent Wu
Audio recorded with a Zoom H2n

Esse é meu arranjo mais simples, o primeiro que escrevi para esse projeto. A melodia foi dividida entre o piano e violoncelo, em contraponto a três vozes, que alude bem livremente a uma estética musical barroca (bem livremente mesmo). A melodia original aparece “escondida” nessa trama contrapontística, e se repete três vezes. A cada repetição, a melodia original fica um pouco mais clara para o ouvinte, e só é apresentada claramente no final do arranjo. Então durante o arranjo o ouvinte pode ter a impressão de que “já conhece” aquela música mas não sabe exatamente de onde, e só reconhecer do que se trata no fim da música.

3. Ciranda da Bailarina
autores: Chico Buarque,Edu Lobo | editora: Lobo Music/Marola

Para escrever esse arranjo eu me inspirei deliberadamente no 2o movimento da 1a sonata para piano e violoncelo de Beethoven. Fiquei ouvindo esse movimento no “repeat” do som da minha casa por dias e dias. Eu queria que minha versão da Ciranda da Bailarina tivesse o mesmo caráter desse trecho da sonata de Beethoven – não a mesma forma, nem a mesma melodia, nem os mesmos recursos, mas o mesmo caráter. Por isso fiquei ouvindo e não exatamente estudando a música, era algo mais abstrato que eu queria captar. A minha versão dessa música eu praticamente poderia considerar que é uma nova composição minha, a partir do tema do Edu Lobo, tanto que comecei chamando-a de Sonatina da Bailarina. Isso foi um procedimento comum na história da música – compor novas músicas a partir de um tema pré-existente de outro compositor – que hoje foi coibida pela questão dos direitos autorais. E eu não quero desrespeitar o Edu Lobo e o Chico Buarque, meus ídolos, obviamente. Então mantive o título original e chamei o que fiz de “arranjo-sonatina”. Mas o que acontece nessa música, realmente, é que usei o tema original para desenvolver seções musicais inteiramente novas, derivadas do tema, mas já com muitos outros elementos adicionados ou modificados. Cada sessão da música usa o tema de uma maneira diferente, como fazem os compositores da música erudita, e como ocorre nas sonatas clássicas ou do início do romantismo, como é o caso da sonata beethoveniana que inspirou minha criação.

4. Valsinha
autores: Chico Buarque,Vinicius de Moraes | editora: Cara Nova/Marola

No final desse arranjo ocorre a citação do tema inicial de “João e Maria”, música de Sivuca e Chico Buarque, em contraponto com a melodia de “Valsinha”. Escolhi essa música para entremear com a outra pela sua relação de sentido na letra – as duas falam sobre um amor triste, com uma beleza e uma ternura, mas com uma certa mágoa embutida. E as melodias, quando experimentei, de fato encaixaram. Afora isso, no arranjo eu usei principalmente as quatro primeiras notas do tema da “Valsinha” e teci variações melódicas sobre essas quatro notas. Outra característica do arranjo é a presença de fórmulas de compasso diferentes: com frequência, o piano está “pensando” o ritmo de uma maneira e o violoncelo está “pensando” o ritmo em outra (para os músicos, 3/4 e 6/8). O resultado é que cada um acentua lugares rítmicos diferentes. Isso foi um recurso para trazer uma dramaticidade e um certo “desencaixe” para a valsa original da canção, que se refere ao desencaixe emocional retratado pela letra.

5. Invenção sobre um número telefônico
autora: Júlia Tygel


George Chan – Videography and Editing
Audio recorded with a Zoom H2n

Essa pequena música minha foi composta sobre o número de celular 92021245, antigo número do grande pianista e amigo Bebeto von Buettner, como consolo para o fato de seu número de celular não fazer nenhum sentido harmônico, quando transformados os números em notas da escala com funções harmônicas. Eu usei o número melodicamente, e ele funcionou muito bem!

6. Caicó
autores: Domínio Público | editora: Domínio Público


Erika Breno Videography and Editing

Esse é um arranjo, ou uma recriação, em coautoria minha e do contrabaixista João Taubkin. Foi fruto de experimentações mesmo, em muitos ensaios com o tema.

7. Estrada branca / Arabesque no. 1
autor: Claude Debussy,Tom Jobim,Vinicius de Moraes | editora: Domínio Público/Fermata


Câmera: Erick Mammocio
Edição: Helio Ishii

Aqui de fato há um entrelaçamento de temas específicos. De fato, mais do que citar Debussy em Tom Jobim, é o Tom Jobim que “entra” na música orginal de Debussy. Historicamente, Debussy veio primeiro, e inspirou Tom Jobim. Nesse arranjo, é mais a música do Tom que se adapta à música do Debussy. O encontro dessas músicas foi iniciado intuitivamente, pela escuta – mas logo vi que a harmonia das duas era muito semelhante e que eu poderia sobrepô-las. Na maior parte do arranjo elas estão sobrepostas em contraponto (as duas ocorrem ao mesmo tempo), com algumas adaptações para facilitar seu encontro. Outras vezes elas foram sobrepostas sem nenhuma alteração, e se encaixaram perfeitamente.

8. Casa Forte
autores: Edu Lobo | editora: Irmãos Vitale

A “Casa Forte” talvez seja o arranjo mais maduro desse trabalho. A música original tem duas partes, que chamarei de A e B. A parte A é mais rítmica e a B é mais lírica. Inicialmente, trabalhei a parte A de forma rítmica e com um acompanhamento um pouco virtuosístico, inspirado nos estudos de Chopin; e a parte B de forma imitativa – colocando a melodia no piano e no violoncelo em imitação, ou seja, um depois do outro repetidamente. Na seção central do arranjo criei um cânone com a melodia da parte A, agora com o caráter lírico da parte B – o mesmo procedimento que tinha usado em “Beatriz”, mas aqui de forma mais complexa: o cânon ocorre em muitas vozes, pois a melodia é repetida 12 vezes, em todos os tons, e seguindo o que chamamos em música de “círculo das quintas” (um tipo de ordenação das notas, muito frequente na história da música). Por isso, no nessa seção, fez-se necessário escrever não mais para piano e violoncelo, mas para piano a 4 mãos – formação capaz de tocar mais notas ao mesmo tempo nesse tipo de contraponto a muitas vozes. O violoncelista é convidado a sair do violoncelo e fazer uma participação no piano. Já fizemos isso de diversas maneiras: a Adriana Holtz, uma das violoncelistas com quem toco regularmente, toca piano bem, e geralmente assume a parte a 4 mãos. No CD, a parte foi gravada pela pianista Thais Nicodemo, que às vezes faz a participação ao vivo nas apresentações, o que é sempre divertido, uma surpresa para o público. Uma vez, em um concerto a céu aberto, ela chegou de bicicleta e subiu no palco fingindo que não sabia de nada… foi uma performance mesmo. No fim do arranjo, os temas A e B se entremeiam, ou seja, são colocados em contraponto, um sobre o outro ao mesmo tempo. E, outra vez, se encaixam perfeitamente!

9. Chora Coração
autores: Tom Jobim,Vinicius de Moraes | editora: Jobim music/Tonga/BMG

(nota: em breve vídeo aqui)

Esse arranjo é tão curtinho que é quase uma vinheta. Ele é bem simples, também: adicionei uma escala ascendente ao final da melodia, que acompanha a entrada da repetição da melodia, de forma que ela soa praticamente circular, indo sempre para o agudo, como se não tivesse fim – a ideia era provocar, rapidamente, essa sensação.

10. Senhorinha / Prelúdio em sol maior
autores: Guinga,J. S. Bach,Paulo César Pinheiro | editora: Cordilheiras(EMI)/Domínio Público


George Chan – Videography and Editing
Audio recorded with a Zoom H2n

Aqui novamente há o emaranhamento de duas músicas pré-existentes. Eu já estava com idéia de juntar essas duas músicas, porque intuitivamente achava que elas se encaixariam. Então a Adriana Holtz e a Vana Bock, as duas violoncelistas que gravaram o CD, pediram que eu escrevesse algo para o duo de violoncelos que elas têm, chamado Duo Imaginário. Daí eu aproveitei a idéia em mente e o fato de que o Prelúdio da corda sol de Bach é uma peça emblemática do violoncelo. No arranjo, as duas músicas se entremeiam de formas diferentes nas várias seções, aparecendo inteiramente ao mesmo tempo apenas no final.

11. Improviso
autor: Júlia Tygel | editora: Direto

O nome refere-se à liberdade de forma da composição, ligada ao universo onírico, livre. O título foi usado em peças com esse caráter por diversos compositores, como Chopin, Scriabin.

12. Barroca
autor: Júlia Tygel | editora: Direto

(nota: em breve vídeo aqui)

Inicialmente um trabalho da faculdade, acabou se tornando uma peça que eu de fato “assino embaixo”. O nome vem do caráter do tema inicial, que tem um rebuscamento (no sentido de ser “enrolado” mesmo, circular). Mas a estética é, livremente, um pouco Bartókiana, eu acho.

13. Roda Viva
autor: Chico Buarque | editora: Arlequim

De novo a música está entremeada com ela mesma… A idéia desse arranjo foi a melodia ir se dissolvendo, assim como a roda viva dissolve os sonhos descritos na letra da canção. Ela é apresentada com uma outra melodia, nova, em contraponto, e vai sendo cada vez mais sugerida de forma indireta ao longo do arranjo. Há um contraste entre a primeira parte, mais rítmica, que no original fala dos sonhos ou dos projetos, e a segunda parte, que tratei de forma mais lírica, que é o refrão que descreve a roda viva vindo e destruindo esses sonhos e projetos. O final do arranjo tem um prolongamento grande da primeira parte, como se os sonhos e projetos de fato fossem adiante, mas termina com uma coda que repete o refrão da parte lírica da roda viva.

Para finalizar veja de pertinho a técnica:

 

Conheça os projetos Gota D´água  e Anjos Sem Fronteiras – SOS ANJOS

Doca Furtado – Cigano ou Monge?

Doca Furtado é um artista versátil, regional e, ao mesmo tempo, globalizado. O autor do livro “A HISTÓRIA QUE SE CONTA A HISTÓRIA QUE SE VÊ” é músico, poeta, compositor – um artista.

Se assim do nada, você quiser ver um show, ele toca em Campinas e região, em vários tipos de eventos. Quase sempre pode ser encontrado, aos domingos, na hora do almoço, no Bar Deck em Sousas distrito de Campinas.

Veja o que ele mesmo diz na entrevista abaixo: